Os quadrinhos dentro do jornalismo
- Raphael Soares

- 16 de jul. de 2018
- 4 min de leitura
Atualizado: 18 de nov. de 2018
Como os cartuns transformaram a linguagem e se tornaram uma ferramenta à favor do jornalismo

Quando pensamos em quadrinhos dentro de um jornal, a primeiro imagem de temos é a dos cartoons. As primeiras histórias em quadrinhos foram publicadas em jornais impressos como um recurso para atrair mais leitores e comercializar mais jornais. O primeiro destaque que serviria como referência a outro títulos seguintes foi o The Yellow Kid de Richard Fenton Outcalt, a história de um garoto que vive nos guetos de Nova York e que usa uma camiseta amarela para se comunicar dentro do quadrinho. Um elemento foi crucial para essa titulo ganhar destaque entre as artes sequenciais em 1895, o introdução de balões de fala para os personagens.
Podemos pontuar que as histórias em quadrinho a partir do final do século XIX tiveram impacto nos veículos de comunicação, em virtude da propagação de informação, ideologias e valores dentro da sociedade que cerca o jornal ou durante a criação da própria HQ. Durante o período de guerras no início e na metade do século XX, foram apresentados ao público inúmeras HQ com a temática de super heróis, como Capitão América ou Super Homem. Muitos destes títulos carregavam mensagens contra as forças inimigas da época, o que gerava uma massificação da propaganda armamentista, para muitos críticos o surgimento do homem de aço em 1933 foi considerado os Anos Dourado das HQ nos Estados Unidos, em virtude da quebra na bolsa de valores no ano de 1929 que decorreu na depressão econômica, falências, inúmeros prejuízos e até em suicídios, afetando moralmente e psicologicamente a população, nada melhor do que super heróis para mudar uma “realidade” negativa e distorcida.
Outro destaque que vai de encontro com a temática e contexto de seu tempo, mas em contra a mão dos norte-americanos é Mafalda, do argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón mais conhecido como Quino em 1964 . Quadrinho sul-americano que retrata uma menina preocupada com a humanidade e os direito humanos, uma história que em muitos momentos critica a sociedade e a realidade ao invés de enaltecê-la.
A partir desse momento os quadrinhos passam de entretenimento com histórias fictícias para incorporar uma linguagem que critique ou propaga mais reflexão aos leitores. O principal exemplo que temos de autores que começaram a flertar com as HQ’s para contar suas histórias de reportagem em quadrinho é o maltês Joe Sacco em 1996 com a publicação de Palestina. Nela possuímos a perspectiva do próprio Joe Sacco como repórter dentro de suas vivências para construir uma matéria jornalística. Isso é o que mais chama a atenção para o quadrinho, pois nele vemos o repórter dentro da notícia, como um elemento novo. Coletando depoimento de pessoas comuns dentro daquela realidade, convivendo com elas e mostrando fatos que possivelmente não poderiam ser transmitidos com fotos, filmes ou até mesmo palavras. Nesse ponto os desenhos ganham impacto significativo pois há momentos como os dos quais Joe Sacco passou em território de conflitos na qual não era possível registrar acontecimento com câmeras ou gravadores, o que limita os recurso que uma reportagem convencional necessita. Já em uma reportagem em quadrinhos os limites impostos pelas circunstâncias da reportagem são reduzidos pelo quadrinista que irá trabalhar em conjunto do repórter (como Sacco não sabe desenhar um quadrinista é necessário), criando todos os fatos não registrados no papel a partir da memória, relatos do repórter ou registro iconográficos. Há ocasiões na qual o quadrinista-ilustrador pode acompanhar o repórter como um fotógrafo e agir como a memória fotográfica para retratar o máximo possível dos acontecimento.

O jornalismo e histórias em quadrinhos possuem características em comum, que tornam elas convergentes: a adaptação e apropriação de personagens reais e a ambientação histórica. Aqui Sacco conseguiu consolidar os JHQ (jornalismo em quadrinhos) acrescentando elementos do new jornalism, como profundidade nas reportagens para tornar imersivo o uso da verossimilhança com a realidade, dos personagens e do ambiente.
O Jornalismo em quadrinhos pode ser entendido como a prática em conjunto da investigação jornalística como a apuração e ética nos fatos; narrativa com imersão nos personagens e no ambiente; e as técnicas dos quadrinhos que possibilitam condensar notícias e informação em balões e quadros de maneira visualmente atraente. Influindo até lampejos de ficção tais como personificar animais para transcender o conceito de gênero, racismo ou xenofobia dentro da sociedade. Como seria um mundo onde todos podem se tornar porcos? (Link para matéria do Supernada)
Por mais que o quadrinho tenha a finalidade de tornar o contexto e ambiente dos fatos mais reais, mais próximo do leitor, não se pode negar que todas informações são parciais, nada de imparcialidade. Isto é peculiaridade das HQ assim como do próprio jornalismo em si, além de ser um aspecto natural do ser humano. Todos as pautas de jornais, revista, programas de televisão possuem posicionamentos ideológicos que influenciam na mediação das informações. Assim como os jornalistas, os quadrinistas tentam transmitir suas impressões de mundo, cultura e individualidade pelos desenhos. Quando misturados com o compromisso com a verdade dos jornalistas os quadrinhos ganham um aspecto mais crítico e de importante reflexo da sociedade e da midiatização.
A sociedade contemporânea está construída em uma lógica midiática, uma cultura da informação, na qual todos estão conectados a aparelhos que transmitem informação (TV, rádio, internet) que sustentam a consciência coletiva. Um senso comum, princípios, valores. A construção de ideia fora desse padrão é uma resposta, reflexão e ação perante a ela emergida das interações interpessoais, o que sustenta a liberdade de opinião. O próprio uso de quadrinhos em jornais é uma liberdade e novidade dentro do modelo informativo, visto que a HQ e o quadrinista são outros agentes que podem influências e mediar reportagens com caráter mais interpretativo. Dessa forma as JHQs são ferramentas de autocrítica ao fazer jornalístico e da forma como as informações são circuladas e recebidas pelo público.
Vamos conversar com quadrinistas para explorar suas HQs e as ideias por trás delas .




Comentários